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sábado, 28 de junho de 2014

Conto de fadas perdoa corrupção


Um livro que comecei a ler, O Lado Sujo do Futebol, está mostrando o que eu estava careca de saber, mas não tinha como comprovar: futebol é um antro de corrupção e cartas marcadas. Muita gente sabe que onde entra poder e muito dinheiro, entra também um festival de irregularidades.


Mas o povo, mesmo desconfiado, prefere ficar longe disso. Prefere ignorar as denúncias do livro e retomar a sua infantilesca ilusão. O clima de contos de fadas anexado ao futebol e transmitido a gerações por muitos anos, graças a um complexo, poderoso e exclusivo sistema de publicidade bélica e insistente, é muito forte e arraigado para ser deixado de lado.

Os brasileiros gostam de futebol porque são induzidos a isso. Uma prova de sucesso absoluto de um trabalho publicitário muito bem executado. E não há quem tire os brasileiros desse fanatismo hipnotizante. Nem mesmo as surpreendentes, mas realistas denúncias de corrupção de seus ídolos ("rei morto, rei posto", é o que a tradição diz).

Essa publicidade, que já é armada pelos barões do futebol, os verdadeiros jogadores dessa copa, feita para colocar os dirigentes brasileiros na cúpula da FIFA, além de colocar os brasileiros em uma hipnótica submissão ao futebol, onde se comportam como verdadeiros reféns, transforma a sua ilusão em razão de viver, pois torcedores, gritam, brigam, matam e morrem por causa dessa emoção barata do futebol.

E justamente por serem reféns, preferem continuar com esta síndrome de Estocolmo de amar o seu sequestrador, o mais corrupto dos esportes, fazendo de tudo para dissociá-lo da triste realidade que a população se recusa a enxergar. Crendo na falácia de que os jogadores, cúmplices deste esquema, foram tão enganados quanto a população de torcedores.

Triste ver uma submissão absoluta a um esporte tão medíocre e tao corrupto. Mais uma vez vemos a ingênua população brasileira completamente emburrecida e cega pela luz artificial daquilo que preferem considerar como seu "maior prazer".

Quem ganha dinheiro com o futebol agradece a esta submissão e certamente irá trabalhar para que a santa hipnose de cada 4 anos se mantenha, transformando uma ilusão em realidade maior e fazendo com que os brasileiros briguem pelo direito de serem enganados. Igualzinho naquela fábula do cavalo de Tróia, em que a população, iludida pela beleza de uma bela estátua, é seguidamente atacada por soldados que estava dentro dela, após ignorar avisos de prevenção.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Justificativas mais comuns para tentar classificar o futebol como "importante"

O brasileiro é fanático por futebol. Fanático no PIOR sentido da palavra. A sua adoração doentia por futebol é infantil, irresponsável e extremamente ridícula. Nesta época do ano, os brasileiros passam a agir feito imbecis e se acham no direito de ser imbecis, desde que não sejam chamados de imbecis.

E entre as imbecilidades do brasileiro em épocas de copa é associar futebol a patriotismo, como se a dignidade do brasileiro dependesse da vitória em um supérfluo e inócuo campeonato de futebol. E não faltam pessoas que saem a procura de argumentos e justificativas para a excessiva importância dada ao futebol.

Sendo extremamente popular, mas ao mesmo tempo ridículo, para muitos é menos trabalhoso tentar inventar uma importância ao futebol do que assumir a sua ridiculosidade e abandonar o hobby que garante o bem estar social para a maioria dos brasileiros.

Bom lembrar que antes de tudo, o ato de gostar de futebol, mais ainda em épocas de copa, é uma obrigação social, quase uma regra de etiqueta. E brasileiros, sendo seres sociais como todo ser humano, sabem muito bem que abrir mão do futebol é abrir mão de direitos que somente o adequado convívio social pode oferecer.

Por isso mesmo, para tentar tirar o título de "ridículo" daquilo que eles não querem ou não podem largar, arrumam argumentos mais ou menos nobres para que o futebol possa ser visto como "importante" e que justifique a sua dedicação quase exclusiva em épocas de copa. Vamos a algumas delas:

1) Futebol traz dignidade ao país

Futebol nada tem a ver com dignidade. É uma forma de lazer. Sermos considerados o melhor no futebol não traz nenhum tipo de ganho para o cotidiano dos brasileiros. E isso já é comprovado através das 5 vitórias que tivemos. Influiu em alguma melhoria? Claro que não! Mas ainda tem muita gente que ainda acredita que a vitória no futebol ainda vai eliminar os nossos problemas...

2) Futebol é oportunidade para o povo pobre

Em termos. O futebol serve como uma loteria onde apenas uma esmagada minoria de garotos pobres, portadores de muita sorte, consegue ganhar dinheiro e mudar de vida, abandonando a miséria. Além disso, por desestimular a educação, mesmo o garoto pobre que vira magnata só por chutar umas bolinhas, continua tão "sábio" quanto era antes, demonstrando muitas vezes uma vida irresponsável, passiva, submissa e extremamente alienada, provando que o enriquecimento financeiro não ajudou no enriquecimento intelectual do ex-pobretão.

3) Futebol dá alegria ao povo

Alegria? Que alegria? Ao menos que você não saiba o que é alegria, não dá para concordar com este argumento. A alegria que o futebol proporciona é ficcional, é ilusória. Não é uma alegria concreta. O futebol não traz benefícios aos seus torcedores, apenas os entretêm. É mais fácil classificar o futebol como uma fuga dos problemas do que um gerador de felicidade. 

E observando melhor, sabe-se que pelo menos 90% dos que curtem futebol tem uma personalidade passiva, submissa, piegas e demonstram total desprezo a mudanças radicais e também adoram seguir regras e obedecer líderes. Como uma pessoa assim pode desejar a verdadeira felicidade através de uma mera ilusão?

E outra coisa: comediantes também dão alegria ao povo e ninguém fica dizendo que nomes como Fábio Porchat e Paulo Gustavo são heróis só porque fazem as pessoas sorrirem. Não se vê no humor os mesmos tipos de comentário que se veem no futebol, mesmo que o tipo de alegria adquirida seja o mesmo.

4) Futebol une pessoas de diferentes classes, credos, raças e ideologias

Pura hipocrisia acreditar que pessoas que em outras situações vivem se digladiando, possam se unir durante duas horinhas para curtir um prazer em comum. É um forçamento de barra para transformar o futebol em ativismo social. 

E será que temos que depender de um mero lazerzinho para fazer a humanidade aprender a se unir? Sinceramente, conheço formas muito mais nobres para ensinar as pessoas a amar e se respeitar do que o futebol. 

Lembrando que o mesmo futebol que une pessoas diferentes pode separar relações de afeto onde uma das pessoas, ou mais, não curte futebol.

5) Futebol nos ensina a ser patriotas

Que absurdo! Quer dizer que o Brasil não é um país, é um time de 11 jogadores? Na verdade, quanto a isso, o futebol faz justamente o contrário: dá uma noção erradíssima do que é patriotismo, banaliza símbolos cívicos e mantém os torcedores bem longe do verdadeiro patriotismo, aquele que luta bravamente (sem medo de ser morto por policiais submissos a governos e empresários) pela melhoria de nossa sociedade. 

O país é a população, não o futebol. O Brasil continuará existindo se o futebol for extinto.

6) Futebol favorece  a nossa economia

O Brasil tem inúmeros produtos que fazem a economia funcionar. O futebol não passa de uma delas e das mais pífias. Embora muito dinheiro role pelos gramados, temos muitos outros motivos para que o sistema de produção de mercadorias e serviços e de geração de renda seja mantido em intensa movimentação. O futebol ajuda, mas sem ele continuamos a crescer, graças a imensa diversidade de produtos e serviços que temos condições de oferecer.

7) Futebol nos dá orgulho

Se fôssemos um país pequeno e sem diversidade, esse argumento até que faria algum sentido. mas essa declaração soa ofensiva se lembrarmos que somos parte de um país imenso e totalmente diversificado. 

Somente a baixa auto-estima (complexo de vira-lata) pode fazer que uma reles brincadeirinha seja vista como motivo maior de orgulho. E a nossa cultura? E as nossas belezas naturais? E a nossa culinária?  E a nossa ciência?  E a nossa gente? E as outras modalidades esportivas? Isso tudo não nos dá orgulho? 

Querer que o futebol seja única fonte de orgulho é pensar pequeno.

8) O futebol nos representa lá fora

Como se não tivéssemos outro motivo para nos fazer conhecidos no exterior. É até chato para um brasileiro ser famoso por uma coisa só. Parece gafe de autista: lá vem os estrangeiros rirem de nossa cara porque superestimamos uma forma de lazer. 

Até mesmo sociedades fanáticas por futebol, como a Alemanha, a Inglaterra e a Argentina, sabem colocar as coisas no lugar e acham muita graça do nosso "patriotismo de copa" onde país e time de futebol são embaralhados e inversamente idolatrados. Lembrando que nossa diversidade oferece muitas coisas muito melhores do que o reles futebol, para sermos conhecidos no exterior.

9) Futebol tira os jovens das drogas

Essa é a falácia mais cara de pau defendida por quem curte futebol. Como se tirar os jovens das drogas estivesse incluído entre as regras de prática desta modalidade esportiva. A lógica mostra que o futebol nada tem a ver com sua capacidade de desviar o jovem das drogas e que é faz isso é um bom trabalho educacional, que pode ser feito até com quem odeia futebol (ou seja, não é preciso futebol para tirar jovens das drogas). Por outro lado, em alguns casos, o futebol pode até apresentar os jovens às drogas: 

a) jogadores famosos se envolvem com celebridades, meio onde circula muitas drogas; 
b) por ser uma atividade competitiva, esteroides, anabolizantes ou qualquer substância pode ser usada para o aumento de desempenho. Muitas dessas substâncias podem até viciar e gerar graves danos ao organismo.
c) Um jogador de futebol que entrar em depressão em uma atividade que envolve muita cobrança ode encontrar nas drogas a perfeita fuga para o fracasso.

Como veem, a falácia de que futebol é necessário para afastar os jovens das drogas é uma crendice tola que não faz sentido e que na passa de uma desculpa para justificar a suposta importância do futebol.

10) Futebol é a maior paixão do povo brasileiro

Paixão? Coisa nenhuma! Uma observação detalhada pode derrubar violentamente este argumento, se lembrarmos que brasileiros são muito vulneráveis a modismos, acreditando que o que a maioria faz está sempre correto. Pesquisas comprovam que quem gosta REALMENTE de futebol é uma pequena minoria. O futebol é bom para os brasileiros PORQUE É POPULAR e é esse o verdadeiro motivo de tanta adesão. A maioria adota o suposto hobby como uma espécie de modismo duradouro, para se sentir incluído na sociedade. 

O próprio comportamento da maior parte dos torcedores durante os jogos (assistindo como se o jogo em si fosse uma preliminar para o grito de "GOL!", verdadeiro objetivo dos que assistem aos jogos) e o desinteresse pela parte técnica e pelos bastidores (incluindo a corrupção feita para favorecer equipes) mostra que brasileiro não gosta de futebol coisa nenhuma: simplesmente está de olho na festa que vem após a vitória da "seleção" ou de seu time favorito. A festa que servirá para se sentir incluído na coletividade, num estranho hábito de legitimação da histeria.

E tenho a absoluta certeza de que, se o futebol fosse impopular, boa parte desses "patriotas de copa" estariam bem longe do futebol, tratando Neymar & CIA como um bando de desconhecidos.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Explicando aos torcedores as críticas que eles recebem pelo fanatismo doentio

Os brasileiros sempre acreditaram na suposta unanimidade do gosto pelo futebol. Foram educados a pensar que as palavras torcedor de futebol e brasileiro fossem sinônimos e que se aparecesse um que assumisse o desprezo pela citada modalidade esportiva, certamente seria doente mental ou bandido.

Veio a internet, único meio de comunicação realmente democrático que existe (já que os outros não passam de meras vozes de seus donos) e mostrou que os brasileiros que preferem passar bem longe do futebol não somente existem, como são muito mais numerosos do que se pensava. Há quem diga que são uma maioria, mas a suposta minoria que curte, além de barulhenta é socialmente influente (bom lembrar que o futebol é visto por muitos como obrigação social).

Mesmo assim, os torcedores estavam tranquilos, pois os não-torcedores representavam uma voz muito baixa para serem ouvidas durante os gritos apavorantes da torcida ensandecida.  Mas em 2013, através do Facebook, essa pequena multidão, cansada de ser ignorada por muitas décadas, começou a lançar postagens criticando o fanatismo do futebol. Os torcedores não esperavam por essa repentina avalanche de críticas a um hábito que eles consideravam uma absoluta honra. Do nada, seu prazer maior e suposto dever cívico começou a ser esculhambado. Eles não entenderam nada.

Esta postagem tem o objetivo de explicar aos torcedores o porque de seu fanatismo ser bastante criticado, inclusive com uma certa dureza. Nada de ofensivo (os que usam isso para ofender também erram), aliás, pois não se está criticando o futebol e seus envolvidos, e sim o fanatismo que coloca essa modalidade esportiva, seus praticantes e admiradores acima de um contexto ao qual eles pertencem. Vamos explicar com detalhes o porque de tantas críticas.

O problema não é o futebol. É a importância dada a ele

Para quem não sabe, todo esporte possui suas copas. E cada esporte possui uma copa para cada variação ou categoria. Mas a do futebol chamado "oficial" é a única que possui tamanha dedicação e divulgação, por fazer os seguidores acreditarem ser um evento cívico. Um erro grave, aliás, se lembrarmos que o futebol não passa de uma simples forma de lazer. Um passatempo para quando não se tem algo importante a fazer. Pelo menos foi isso que passou pela cabeça de quem inventou o futebol. A mídia é que transformou o futebol em dever cívico, graças a um complexo e insistente processo de manipulação ideológica (proselitismo, persuasão).

Os torcedores precisam saber que é de fato ridículo transformar uma mera distração em dever cívico. É uma atitude que lembra muito os hábitos de uma criança pequena que leva muito a sério suas brincadeiras. Nem mesmo sociedades bem menos instruídas educacionalmente do que a nossa consegue agir desta forma, sabendo diferir o lazer futebolístico dos deveres cívicos.

É esse tratamento dado ao futebol que o transforma em algo bastante chato. Os torcedores de futebol deveriam parar para pensar e lembrar que outras modalidades esportivas não sofrem tamanha rejeição de quem não os curte. Não se vê críticas ferozes contra, por exemplo, o vôlei. Mesmo bastante popular, o vôlei ainda não é confundido com dever cívico. Não é excessivamente levado a sério e visto como prioridade como o futebol sempre foi tratado.

E quando o futebol e seus praticantes são duramente criticados, não é com a intenção de ofendê-los, embora alguns comentários até pareçam ofensivos. Na verdade a intenção é desfazer os mitos que goram em torno desse heroísmo falso atribuído aos praticantes de futebol, que são tratados pelos torcedores como se fossem soldados protos para ir a uma guerra que lhes trará a dignidade prometida (e nunca alcançada), Na verdade, esse negócio de futebol-patriotismo é uma brincadeira de faz-de-conta que dá tempero ao usufruto deste prazer lúdico.

Mas não deixa de ser ridículo, pois esse fanatismo mexe com a realidade e incomoda bastante o cotidiano de quem prefere ficar longe desta hipnose coletiva.

- Serviços essenciais param em tempos de copa;
- Vizinhos berram histericamente, a níveis de decibéis que igualam a decolagem de um avião  supersônico;
- Pessoas que não curtem futebol sofrem preconceito e humilhação, além de serem totalmente desamparadas por autoridades e pela mídia que nada fazem para os entreter e confortar;
- Sem falar que amigos e parentes costumam abandonar as pessoas que não curtem futebol, essas que se sentem mais solitárias (e traídas) em épocas de copa.

Essas e outras coisas interferem na realidade de quem prefere estar longe do futebol e além do fanatismo em si também são motivos para que a adoração desmedida ao futebol seja criticada.

O futebol deveria ser tratado como algo banal e não como "orgulho nacional"

O ideal é que o futebol fosse tratado como algo comum. Atualmente é tratado como algo colossal, como se fosse capaz de mudar o mundo (a prática mostrou há muitas décadas que isso é um absurdo).

Embora argumentem que seja uma diversão que deva ser respeitada, os torcedores não a tratam como diversão e sim como uma obrigação cívica e social. Como se o futebol fosse um assunto sério, de segurança nacional. Como se a vitória da "seleção" tivesse a capacidade de tirar o país da miséria. Se com cinco títulos o Brasil continua cada vez pior, então é melhor rever esta falácia de que futebol melhora a vida da população.

A copa de futebol deveria ser tratada como as outras copas, seja de outras modalidades esportivas ou até mesmo de outras categorias do futebol, estas tratadas com maior normalidade, sem a histérica dedicação que a copa de "seleção" oficial de futebol (a do Neymar & CIA) recebe. 

Essa dedicação excessiva que o futebol recebe é que é considerado alienação. Pois alienado não é quem curte futebol e sim quem acha que tem a obrigação de curtir futebol, por representar - para o alienado - um dever cívico que nunca deve ser adiado ou colocado abaixo de outros interesses, na verdade bem mais importantes. Isso sim é que é alienação.

Parafraseando o jornalista Mino Carta, da revista  Carta Capital, "Espero ainda pelo dia em que o futebol deixará de ser importante para os brasileiros". Até porque algo não precisa ser "importante" para ser agradável e apreciado nos momentos saudáveis de lazer. Muito menos a superestimada modalidade esportiva, um símbolo de "orgulho cívico" que não tem dado nenhum orgulho ao país fora de setores dos quais o futebol não pertence.

Quer curtir futebol? Tem todo o direito. Só não tem o direito de pensar que isso é patriotismo. O futebol é inócuo demais para mudar qualquer estilo de vida e trazer orgulho para a nação.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Como fugir da histeria da Copa

POR XICO SÁ - Folha SP - 07/05/14  20:21

Foi somente a convocação dos 23 nomes da Seleção Brasileira e a histeria copeira já veio para ficar. Invadiu programas de variedades na televisão, atrasou o almoço na firma e fez o porteiro esquecer, ao relento, a moradora mais gostosa do prédio, logo a sósia da Isadora Ribeiro –isso foi fato aqui em Copacabana.

Curto a barulheira, sou cronista esportivo da “Folha” e participo do “Redação Sportv”, programa que discute como a imprensa enxerga o jogo e a cultura do futebol.  É prazer e também trabalho.

Até ai tudo bem, mas o oba-oba espetacularizado de hoje, a mais de um mês ainda do evento, me fez lembrar dos amigos que não gostam de futebol.

Aqueles que sofrem verdadeiro bullying, desde a escola, por não se envolverem com a modalidade esportiva.

Estão ferrados.

Valéria e o marido Hugo vão fugir para a Califórnia. Têm grana, planejaram a fuga e até tentaram evitar que o filho colecionasse as figurinhas –batalha perdida, obviamente, se um álbum seduz um adulto, imagina uma criança.

De qualquer forma, o casal vai cair fora. E os amigos mais lisos que bunda de índio, que não têm grana para viagens de fuga, como escapar?

Até os seus bares prediletos estarão tomados pelas hordas de fanáticos.

E quem não pode, de forma alguma, deixar de bater o ponto?

Se pelo menos o camarada estiver disposto a ir aos protestos, vá lá, não precisa ver jogo algum, hasteia a bandeira #naovaitercopa e volta de alma lavada para casa. E em paz. Tomara.

Se pelo menos o sujeito, como o meu estimado corvo Edgar, adora secar o escrete canarinho, ainda se diverte com a perversão do agouro.

Caso contrário…. Vida dura a de quem não curte futebol nesse momento. Como escapar da festa cheia de miniblusas canarinhas, shortinhos, bolão dos amigos, caipirinha e acepipes planejadíssimos?

Realmente uma desgraça para quem odeia a tal da “Pátria em chuteiras” do conceito de Nelson Rodrigues.

Que fazer, caro Vladimir?

Fugir do futebol em tempos normais é moleza, embora uma noite ou outra os gritos de “chupa gambá”, “chupa bambi’, “chupa porco” atrapalhem o sono, o filme-cabeça ou o seriado cult da temporada.

A fuga dessa maratona vai ser uma gincana que requer força física, alguma grana e muita criatividade. Até lá na tribo dos Zo´é, povo quase isolado nas selvas do Pará, corre o risco de ter Copa –o fotógrafo Rogério Assis, autor de um belo livro sobre estes índios que o diga.

Só se for para mosteiros budistas, amigo. Em conventos católicos, não recomendo. Como constatei em reportagens em 2010, até a mais religiosa das carmelitas descalças sai do retiro espiritual para ver a seleção de Neymar e companhia.

Realmente preocupado com quem vive o pânico da Copa, apelo: caríssimo leitor, qual sua ideia de rota de fuga? Colabore com este serviço de utilidade pública.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Como sobreviver à Copa quando você não curte futebol

Por Luanda Lima, Blog Lua na Rua, em 20/06/2010

Desde 11 de junho que não se fala em outra coisa. De repente, palavras como jabulani e vuvuzela parecem ter se infiltrado no vocabulário de todos, do cobrador do ônibus aos colegas de trabalho. Além de Dunga, de repente o país ganhou 190 milhões de técnicos de futebol. É um tal de gente comentando com propriedade sobre países distantes que desconhecia até dois minutos atrás, gritos ensurdecedores e um patriotismo jamais visto antes em qualquer campanha presidencial. Qualquer pessoa minimamente observadora sabe que, ao ver alguém na rua vestindo blusa do Brasil, só existem três explicações possíveis:

a) É gringo
b) É Copa
c) É gringo e é Copa

Dessa vez, como tudo em volta nos lembra incessantemente, estamos na décima nona edição da Copa do Mundo, que vai até o dia 11 de julho. E o futebol é tão importante no cotidiano e na cultura do brasileiro que, quando a seleção joga, o país para. É comum encontrar universidades e escolas que liberem os alunos e empresas que deixem seus funcionários e estagiários livres nos dias de jogo. Então, é aí que todos deixam seus afazeres de lado para acompanhar atentamente os dribles e passes de bola, se emocionando a cada gol.

Quer dizer, todos, menos os infelizes que não ligam pra futebol e calharam de nascer justo aqui. Os párias sociais que cometeram o gravíssimo crime de não ver a menor graça em um bando de marmanjos correndo enlouquecidos atrás de uma bola. Os malditos brasileiros desprovidos de patriotismo, que não completaram álbum de figurinha, não fazem lá muita questão de saber o que é um impedimento e nem sentem culpa por não saber a escalação da equipe paraguaia.

São aquelas pessoas que ficam felizes em sair mais cedo do trabalho, mas têm que conviver com a ideia de que, se não assistirem ao jogo, vão ficar quase duas horas sem ter o que fazer nem com quem fazer (isso se não levarmos em conta o pós-jogo). São os indivíduos que, quando resolvem sucumbir à pressão coletiva, passam as partidas desenhando no guardanapo, repassando mentalmente a matéria da prova de quarta-feira ou pesquisando assuntos aleatórios na internet via celular. 

O jornalista Rodolfo Viana, meu amigo e colega de profissão, sabe como é isso. "Sobreviver à Copa é bem difícil no país do futebol, porque o Brasil para. Lá na redação, cessamos os textos a dois minutos da partida. Alguém liga a TV e todos se postam em frente dela. Eu tento continuar trabalhando, mas onde estão os assessores? As fontes? As pessoas? Tudo para, mesmo que você não queira parar. É o meu caso. Então me resta ir à frente da TV e fazer comentários de quem não entende, como 'o Kaká parece anêmico'. Por mim, eu continuaria trabalhando, mas o mundo discorda de mim", diz.

Existe solução pra essas pessoas além da exclusão social e do tédio?

domingo, 8 de junho de 2014

We are not one

Vocês, torcedores de futebol, nesta época de copa se tornam os mais absolutos privilegiados. Todas as atenções do Brasil se voltam a vocês. Quem não curte futebol é solenemente desprezado e tem que se virar para arrumar distração e companhia, já que a meta de todos é toda unificada para o show da bola rolante. 

Quem não curte futebol é totalmente excluído da condição de ser brasileiro, pois ao assumir a aversão ao famoso esporte transformado em dever cívico e social, vira um desertor, como se quisesse prejudicar o bem estar daqueles que apreciam o esporte (uma ofensiva falácia, bem preconceituosa).

Torcedores, vocês sempre que são criticados, clamam por respeito. E pedem como se vocês é que fossem os excluídos. Sinceramente, creio que posso humilhá-los  a vontade, já que para vocês, torcedores, sempre virá alguém com poder, seja políticos, empresários e celebridades, para lhes defender. Posso chamar vocês de alienados, ignorantes ou até xingações piores, pois um grandão aparecerá imediatamente para defendê-los de seu direito de ser coletivamente hipnotizado.

Eu e muitos que preferem passar longe do futebol, não têm a mesma sorte. Além de desprezados, deserdados, não existe uma só lei que nos garanta o direito à diversão em épocas de copa. nenhuma autoridade se dispôs a oferecer diversão alternativa para os que não curtem futebol. Se existem dicas em revistas, sires de como se divertir com o futebol, não há uma só dica para os que não curtem o superestimado evento. Se houvesse, seria "se virem!", numa verdadeira atitude preconceituosa que coloca os não-torcedores como se fossem sub-humanos.

Torcedores, com absoluta certeza, vocês estão tranquilos, com o direito garantido de atrapalharem o sossego alheio em prol de algo que não lhes renderá benefício. Como um cara pacato, gosto de sossego, algo que me é tirado em épocas de copa. Além de não ter distração digna, ainda tenho que aguentar a gritaria alheia, o que na minha opinião é o verdadeiro motivo para o futebol ser tão popular.

Desejo que torçam com alegria e satisfação, já que vocês não vão ceder a nada mesmo. Em copa, futebol é prioridade absoluta e se não é possível o bem estar real da qualidade de vida, coloquem vocês, com ajuda da mídia, de empresários e de políticos, a falsa alegria da abstrata conquista do futebol em seus sorrisos.

Eu, como não torcedor, sou o verdadeiro sofredor. Enquanto vocês vão tentar soltar adrenalina de forma forçada, a minha será solta naturalmente, pelas perdas dos direitos básicos que em tese me são garantidos, incluindo o de ser brasileiro, já que para a coletividade, ser "brasileiro" é torcer pela "seleção".

Mais uma copa se começa e o Brasil se encontra dividida entre os queridos torcedores, filhos favoritos da Mãe-Pátria e os filhos bastardos, desertores por se recusarem a aderir à brincadeira máxima de nossa sociedade.

Bom, eu e muitos não-torcedores (e são muitos, acreditem!) permaneceremos invisíveis durante um mês até que acabe com toda esta festança das 11 Cinderelas amareladas, transformando as carruagens da esperança futebolística em uma enorme e melequenta abóbora estragada, difícil de ser engolida.

Não somos um só coisa nenhuma. São muitos pra lá (do lado do futebol) e poucos pra cá. Dois lados muito bem divididos pelas regras sociais que impõem o lazer ludopédico. 

Que venha o circo dos horrores futebosteiros. Depois disso, quem viver, chorará.