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Novo escândalo no futebol tem muito a ver com a imposição do mito de "dever cívico" atribuído a modalidade

Quando eu era criança, os adultos tratavam minhas brincadeiras com um certo desprezo, como se não tivesse nenhuma importância. Crescido, finalmente entendi o porque do desprezo, pois percebi que brincadeiras só servem para divertir e somente em raros casos servem para alguma coisa séria.

Mas chegando à vida adulta, percebi que para muitas pessoas, certos hábitos não mudam e algumas brincadeiras de adulto passaram a ser excessivamente levadas a sério, como se fossem obrigações, a ponto de unir e desunir pessoas que pensam ser esta forma de lazer crucial para o destino não somente dessas pessoas, mas de toda a sociedade brasileira.

Por muitos anos, brasileiros crescera achando que o futebol não era apenas uma forma de lazer mas um dever cívico, uma obrigação que toda a sociedade seria obrigado a seguir por suposto amor à pátria. Era a nossa forma de manifestar o patriotismo, já que não somos patriotas em ocasiões de maior seriedade, pois não nos incomodamos com a perda de nossos direitos e com a venda fácil de nossas riquezas e de empresas estratégicas para o bem estar de nossa nação.

Mas o que os brasileiros nunca souberam é que o mito de "melhor futebol do mundo" sempre foi uma farsa e que nossas vitória em campeonatos importantes, como a copa do mundo, coincidiram com a influência quase autocrática do cartolas do futebol e do patrocínio caro de gigantes do capitalismo, também coincidentemente patrocinadores do golpe que expulsou Dilma Rousseff e boa parte da esquerda do poder.

O que é mais estranho é que a esquerda vive separando futebol de corrupção, como se a magia que transforma um monte de analfabetos sem escolarização em verdadeiros "gênios influentes da humanidade brasileira" pudesse existir sem a influência de cartolas e de poderosos capitalistas.

Um escândalo surgido nesta semana está deixando os brasileiros, sobretudo os esquerdistas - mais ainda os esquerdistas pró-futebol - com imensa perplexidade: a denúncia de compra através de propina, feita pelas Organizações Globo, de campeonatos importantes.

Não vamos ficar nos prendendo a este fato, pois não faltam meios de comunicação alternativos para tocar no assunto. vamos até indicar um, neste link, que pode explicar melhor o escândalo. A nossa finalidade é relacionar a repercussão do escândalo com a insistência em transformar o futebol em obrigação cívico-social.

Futebol: escolha entre um esporte corrupto e rico ou honesto e pobre

Nossa equipe entende que a magia atribuída ao futebol está intimamente ligada a transformação do mesmo em espetáculo pomposo. Para que isto aconteça, é preciso uma gigantesca quantia de dinheiro. E ela vem de cartolas, patrocinadores e investidores interessados em transformar a modalidade esportiva em um circo atraente. 

Essas poderosas forças capitalistas são as Fadas Madrinhas capazes de transformar uma mera forma de lazer praticada em precários campos lameados por jovens economicamente carentes em uma falsa batalha campal de heróis forjados, embelezados às custas de muitas cirurgias plásticas e muitos anabolizantes.

Agora imaginem se tirarmos esses cartolas, todo o esquema construído em torno do futebol, a retórica pseudo-patriótica e outros enxertos que dão magia a um esporte naturalmente chato e praticado por atletas oriundos de uma classe que em outras situações não seria admirada pela elite brasileira e seus assemelhados.

Se tirarmos tudo que estraga o futebol tiraremos também o que faz do mesmo uma "paixão nacional". Com a mais certa das certezas, o que faz o futebol popular não é a modalidade em si mas a pompa construída em torno dela e a retórica que forja o patriotismo que anestesia muitos brasileiros. Anestesia tanto a ponto de muitos imaginarem que a vitória em uma copa traz dignidade a população brasileira. 

Se acham que estou exagerando, reparem que passados poucos dias da Reforma Trabalhista, ninguém mais se revolta contra a medida, que reduzirá drasticamente o salário do brasileiro, além de eliminar a segurança econômica do trabalhador e dar poderes ilimitados a patrões, que poderão abusar à vontade, inclusive desenterrar a escravidão, supostamente abolida no relativamente recente 1889. 

Em compensação, muitos brasileiros ainda choram até hoje o tal "7 x 1" contra a Alemanha na copa brasileira de 2014, deixando claro o fato de que a vitória de uma forma lazer supérflua em uma copa (ainda mais ocorrida "em casa") é muito mais importante que uma qualidade de vida digna e justamente remunerada. 

2018 é ano de copa e certamente os golpistas usarão o evento e a tara futebolística do povo para tentar compensar as maldades cometidas por Temer & CIA. O hiper-estimado jogador Neymar, "herói" do futebol, amigo e eleitor de Aécio Neves e apoiador da bancada evangélica, vai ser facilmente perdoado pelo seu conservadorismo (que estranhamente contrasta com o comportamento farrista do jogador) e voltará a seduzir os corações de torcedores de esquerda, ludibriados pelo forjado civismo tradicionalmente associado ao futebol brasileiro em copas.

O escândalo vazado neste semana não é nenhuma novidade para a esquipe deste blog. Sabemos muito bem da relação incestuosa entre o futebol e os capitalistas mais corruptos. Sabemos inclusive que as vitórias da "seleção" brasileira são quase todas compradas (principalmente na copa de 2002, cuja participação dos brasileiros foi para lá de estranha, sendo a conquista do Tetra a  vitória do jeitinho brasileiro) e que coincidem muito com o aumento de poder de cartolas corruptos.

A solução é que os brasileiros procurem outros esportes menos corruptos para curtir, pois sem a corrupção, o futebol retorna às várzeas, perdendo boa parte do encanto. Sem a corrupção, a magia acaba, carruagens viram abóboras, chuteiras viram chinelos e os galãs do futebol aqueles garotos feios de roupa rasgada que normalmente seriam desprezados se não fossem os milhões que ganham vindo das mãos de magnatas corruptos.

É preciso acordar e ver que sem a corrupção, o futebol não é nada. É uma brincadeira tosca sem glamour.

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